A "embriaguez" causada pelo filme de ontem fez com que me esquecesse por completo de referir uma experiência que considero fantástica e inesquecível, tendo feito ontem um ano que estreou
Octávio no Mundo, uma peça de Jacinto Lucas Pires, com a encenação da fantástica Natália Vieira (também com o apoio de Diogo Dória).
Trata-se de um projecto bastante interessante levado a cabo pela Culturgest (o Panos), que convida vários escritores, argumentistas, entre outros, para escreverem peças de teatro que serão encenadas por várias escolas. O ano passado foram propostas três, sendo que a que mais se adequava ao nosso grupo foi mesmo a escolhida. E este projecto não podia ser mais cativante: é-nos apresentado um guião, que podemos discutir com o autor e com o encenador, propor até diferentes formas de representação (deve ser a única forma de isso acontecer no teatro).
Mas falemos de
Octávio no Mundo:
Octávio é um miúdo que aparece numa sala, num palco completamente nu, e aquele é o seu mundo. Surge Inocêncio, o dono do jogo. Ah, afinal temos um jogo! Apercebemo-nos de que não será tão fácil de compreender como esperávamos. Octávio está embaraçado, não sabe como há-de reagir àquela definição do que o rodeia. Inocêncio apresenta-lhe uma vez mais o seu mundo, e não se pode dizer que o rapaz embaraçado que está no centro da acção se sinta convencido ou até satisfeito. A cena acaba com um diálogo fantástico que transcrevo para aqui e que definirá muito do que se passará ao longo de toda a história:
Inocêncio - Esqueci-me do que ia dizer (
pausa).
Octávio - Estavas a falar de -
Inocêncio - Ah, sim. A história do jogo dentro da cabeça, que afinal é um mundo concentrado e concentrando-se cada vez mais até explodir, com todos os fogos-de-artifício possíveis e impossíveis e verdadeiros, noutra coisa perfeitamente diferente. O que estava a dizer era que se tens mesmo de fazer alguma coisa, levanta-te ou senta-te - uma das duas, nunca as duas ao mesmo tempo, isso seria feio e feio-mau - e imagina que és um miúdo com ténis vermelhos.
Octávio - (
enquanto as luzes se apagam) Só isso?
Realmente, este jogo de palavras intencionais e pré-meditadas, o tipo que já conhece o terreno pantanoso em que o novato se mete, o rapaz que nem sequer sonha onde é que se foi enfiar, apesar de aquele vir a ser o seu mundo.
Mas, se é um jogo, como podemos afirmar inequivocamente que aquele é o mundo de Octávio e que é algo real? Pois bem, toda a peça está impregnada de influências de filmes como Existenz ou Matrix, em que não sabemos bem se estamos a pairar na realidade ou na virtualidade; aliás, essa explicação é também bastante complicada de obter em
Octávio no Mundo, pelo que as diferenciações que se fazem entre o real e o virtual são quase imperceptíveis em representação no palco. A ambiguidade desta esfera bidimensional tem o seu apogeu na relação com Júlia,
a miúda Júlia, aquela por quem Octávio é capaz de deitar tudo a perder, a sua mais que tudo. Para quem leu ou virá a ler a peça, pode denotar uma alternância ao nível do diálogo, em que umas vezes se está dentro da peça,
dentro do jogo, e outras vezes meras divagações com o público.
Como disse, a experiência que foi ter entrado nesta peça, entrado ao ponto de sonhar com ela, ao ponto de no dia-a-dia não ser capaz de não dar a resposta-chave de mais uma conversa com Júlia, os tiques que se ganham e tão cedo não se perdem; enfim, o Octávio mudou a minha vida para melhor e posso dizer que se aprende muito com esta peça.
p.s: Para quem a quiser ler, pode deixar um comentário aqui no blog com o respectivo mail que eu farei o favor de lhe mandar um documento com a peça integral.
Cumprimentos, Simão Martins