terça-feira, junho 26, 2007

De besta a bestial e passando de novo a besta

Geralmente, nas histórias, há o vilão e o herói. Hoje pretendo dedicar o post inteiramente ao primeiro.



O que é um vilão e que papel tem ele numa história? Normalmente aparece-nos como um tipo simpático à primeira vista, que depois se vai desembrulhando numa personagem asquerosa e miserável ou simplesmente um tipo execrável do início ao fim da história. Enfim, independentemente da conduta adoptada pelo indivíduo, somos quase sempre levados a odiá-lo até ao final do filme e costumamos remoer-nos por isso, culpamo-nos de o termos deixado sequer ter ocupado um espaço de afectividade na nossa mente. Isso aconteceu-me em Match Point, o soberbo filme de Woody Allen, em que o vilão em questão (bom, não direi o que lhe acontece pois isso seria a morte do artista e eu não gosto de estragar surpresas) teima em persistir nas nossas mentes mesmo quando já chegamos à camioneta ou ao carro, mesmo quando estamos prestes a acabar o livro de que tanto gostamos e deixamos essa tarefa para depois, só porque o sacana não dá o braço a torcer. Pois bem, em Down in the Valley, o filme que tive o prazer de ver hoje, o vilão deixou-me surpreendentemente agradado com a sua prestação.
Sublinhe-se no entanto a existente subjectividade na minha análise, tendo em conta que o actor que dá corpo a Harlan é Edward Norton, um intérprete soberbo e um dos melhores da sua geração, sem dúvida.
Continuando, é realmente atípico termos esta empatia com uma personagem que é simultaneamente uma besta, bestial, volta a ser besta mas que acaba no clímax da bestialidade. Trata-se de uma avaliação que é impossível em Robert de Niro em Cabo do Medo, por exemplo, em que apenas queremos ver-nos livres do idiota que nos impede de ficarmos quietos na cadeira a partir de metade do filme.

É, aliás, a partir destes pressupostos da empatia com o vilão que foi construída a personagem do já conhecido e mediático Dr. House, que consegue, devido a esta ambiguidade ética e moral que o caracteriza, ganhar adeptos e inimigos.

Enfim, quero com isto dizer que, ao contrário do que nos ensinam desde cedo, sobre o bem e o mal, o que se deve ou não fazer, pensar, etc, penso que hoje em dia os muros que durante muito tempo existiam (filosoficamente divagando) entre o bem e o mal estão reduzidos a breves amontoados de indefinição e ambiguidade.
O vilão é mau, mas faz o miúdo contente; ele rouba para agradar a miúda que ama mas ela passa a amá-lo ainda mais por isso e nós ficamos felizes. Ao invés do parvalhão do De Niro, que me fez mudar várias vezes de posição no sofá, a prestação deste vilão é ambígua, gerando-nos momentos de grande emoção e outras vezes mordidelas nas almofadas.
Será então correcto dizermos que um vilão é simplesmente um vilão? Ou que essa personagem hoje em dia pode assumir até um papel de pseudo-herói (o exemplo de Tony Soprano é útil para este caso) que nos deixa confortáveis quanto à sua posição na sociedade e o papel que desempenham?

Cumprimentos, Simão Martins

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