quinta-feira, março 29, 2007

"Basta de imigração. Nacionalismo é solução."

Eu costumo dizer que nem sempre é bom clicarmos muito na mesma tecla, mas a tecla que engloba a tolerância e a democracia é sempre bem vinda. E nunca é demais clicarmos nela. Vejamos porquê.

O Partido Nacional Renovador decidiu colocar um cartaz em pleno Marquês de Pombal contra a imigração, com o slogan que podem ver no título. Ora, devem provavelmente recordar-se de uma metáfora que construi há uns posts atrás, em que era feita a analogia de um corpo humano deformado ou amputado com a sociedade dos dias de hoje.
Esta notícia com que me deparei no Público de hoje demonstra com clareza que ainda existem partes do corpo que precisam de ser reparadas.
Foi colocada na assembleia uma questão que se assemelha a uma opinião que tenho mantido e reforçado de há algum tempo para cá: será que deveria haver permissão e passividade para que estes grupos e/ou partidos com ideologias fascistas possam actuar na nossa sociedade?
De facto, mantenho a mesma postura. Vivemos em democracia e é democraticamente que devemos agir na sociedade. A imigração não pode ser visto como algo nocivo à existência de uma nação. Devemos, isso sim, adequar a nossa postura como país de emigrantes que somos e receber e integrar todos os que decidirem viver no nosso país, tal como nos receberam e integraram quando precisámos de asilo no exterior.
A posição do PNR é clara. Devemos ser retrógados e limitar-nos à nossa existência, tal como acontecia no período do Estado Novo.
Penso que quando o deputado do CDS afirma que “apesar dos sinais preocupantes, a questão não deve ser hipervalorizada” e que "à intolerância devemos responder com tolerância e com um silêncio ensurdecedor, não valorizando a questão” (fica a pergunta: porque será?), está apenas a legitimar a projecção de ideiais que contribuem para o atrofiamento dos membros do corpo que parece disposto a não recuperar.
Embora haja uma aparente concordância geral no que toca à condenação deste cartaz xenófobo e racista, persiste ainda o dilema: se um dos princípios dum estado democrático é a livre expressão de ideias e pensamento, será que poderá ser proibido um movimento deste tipo?
Eu sou da opinião, e não lamento que assim seja, que qualquer género de movimentos, partidos, expressões anti-democráticos (para não dizer fascistas e/ou nazis) devem ser travados, para que não disseminem toda essa ideologia que me parece claramente insustentável na nossa democracia. Posso estar a ser anti-democrático, ou mesmo demasiado radical, mas convém que haja uma postura séria e rigorosa para com a xenofobia e o racismo.
Razoável estou a ser de certeza.

Cumprimentos, Simão Martins

quarta-feira, março 28, 2007

Cansei de ser sexy!

Foram uma das sensações de 2006, esta fabulosa banda brasileira de São Paulo que deixou o mundo rendido ao seu álbum de estreia, CSS. Assim, deixo apenas aqui Let's Make Love And Listen to Dead From Above.



Cumprimentos, Simão Martins

segunda-feira, março 26, 2007

«O Maior Português de Sempre!»


Podem e devem chamar-me previsível por escrever um post sobre este tema. Mas se há coisa de que não sou capaz é passar ao lado da eleição de António de Oliveira Salazar como o Maior Português de Sempre.
É mais que ridículo, chega a ser macabro este acontecimento que deve revoltar muitos, agradar a outros e passar ao lado de alguns. Aliás, não devo precisar do auxílio de uma breve biografia do senhor em questão para sabermos o que esta nomeação significa; ainda assim, se ele foi eleito é porque houve gente que votou nele. E para que fosse eleito, teve que ser uma maioria. Há, assim, algo que me intriga: terá sido a ignorância dos eleitores que levou a que este senhor fosse considerado entre outros 9 GRANDES homens o maior português de que nos lembramos? Ou antes um grande apreço dos eleitores para com Salazar?

Na verdade, não consigo perceber qual das duas justifica esta eleição, o que, na minha modesta opinião, é bastante grave (a eleição em si, não a minha incapacidade de saber qual a pergunta correcta). Bastante grave porque esse homem conseguiu que um fantástico país como Portugal se fosse afundando na sua imensa solidão; bastante mais grave porque o meio pelo qual nos afundámos não se deveu a uma bela democracia livre e paradisíaca: foi por meio da autocracia, onde os direitos dos homens são reservados a poucos ou nenhuns; bastante grave porque, enquanto que os outros países já haviam reconhecido o direito à autodeterminação das suas colónias, Salazar preferiu que Portugal lutasse pelas suas «províncias ultramarinas».

Realmente, eu sou adepto de que não nos devemos repetir, sempre com aquelas conversas do tipo: «Ai o Salazar foi um ditador horrível, ele fez isto, fez aquilo...», mas quando este homem é eleito o Maior Português de sempre, convém parar e reflectir um pouco se chega a ser verosímil a escandalosa notícia que vemos em cada jornal, em cada canal televisivo, em qualquer meio de comunicação. Preocupa-me sobretudo porque não sou nem serei nunca afectado por esta nomeação (o que acontece com os filmes que ganham óscares, provavelmente vou ver se são realmente bons). Quem me preocupa são os mais novos, porque os outros já lá vão. Os mais novos é que vão ver, daqui a uns tempos: «Então diz lá uma das grandes personagens da história portuguesa» ao que o jovem diz «Ah eu ouvi falar num Salazar, foi considerado o Maior Português de todos os tempos!». Mal saberá a criança o que está a dizer.

Porque esta votação não procurava denegrir a imagem dos concorrentes para este estatuto, fico preocupado. Creio que concluir um curso de direito com 20 valores ou organizar as finanças de um país não chega para se ser eleito o Maior Português de Sempre, e no entanto Salazar pode-se congratular e desatar aos saltos no seu túmulo por o ter conseguido.

Nem eu sei como. Mas se falar apenas deste triste episódio já aflige, aqui ficam os números da votação, para percebermos de que forma é que ele é aplaudido:

1º António de Oliveira Salazar - 41,0 por cento
2º Álvaro Cunhal - 19,1
3º Aristides de Sousa Mendes - 13,0
4º D. Afonso Henriques - 12,4
5º Luís de Camões - 4,0
6º D. João II - 3,0
7º Infante D. Henrique - 2,7
8º Fernando Pessoa - 2,4
9º Marquês de Pombal - 1,7
10º Vasco da Gama - 0,7

No mínimo, chocante.

Cumprimentos, Simão Martins

quinta-feira, março 22, 2007

Contrariedades


Espaço para o meu poema preferido aqui no Enquanto houver estrada para andar.
É de Cesário Verde, o grande poeta da cidade e do campo, que sempre me embasbacava quando ouvia cada poema seu. Desta forma, mesmo para quem não possa ver dois versos seguidos à frente, peço que pelo menos tentem ler um dos mais fabulosos poemas da literatura portuguesa.


Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cumprimentos, Simão Martins

terça-feira, março 20, 2007

Parabéns? Bem me parecia que não...


Fazem hoje quatro anos que começou a II Guerra do Golfo.

Ora, este é um facto que, mais ou menos aplaudido, não deixará nunca de ser discutível. Porquê? Pela simples razão de que não se começam (ou tal não deveria acontecer) guerras com interesses implícitos. Mas a obsessão americana por poder e por guerras já vai tão avançada e tão (quase) imparável que a conjuntura internacional se terá que preparar para colocar alguns entraves ao tio Samuel, pelo simples facto de que não queremos, falando por quase todos, voltar à época da guerra fria, em que estes se apresentavam confrontados com outra potência. Claro que neste caso seria uma Europa unida a confrontar os EUA.
O que Bush fez em 2003 para agradar ao progenitor não podia ter sido mais mal sucedido. Todos os dias sabemos de atentados bombistas, tropas americanas que morrem. "Sim, mas ele enviou há pouco tempo mais vinte e um mil soldados". Claro está, isto não vai atenuar a situação que por lá se encontra, pelo menos por enquanto. Como disse num dos primeiros posts, tenho muito orgulho em pertencer a um país e a uma cultura que não deixam nada a dever em relação a outros (ok, mais a cultura que o país), mas não aguento ver episódios como o da Base das Lajes, em que Durão Barroso coloca o nosso país de braço dado à grande potência económica, militar, etc. do momento!

O outro objectivo deste post é referir que foi hoje enforcado o vice-presidente iraquiano, Taha Yassin Ramadan. Não me canso de dizer que ainda vivemos em dois mundos, o da civilização e o da não-civilização (mesmo a propósito de quem vai lendo a Cidade e as Serras).
Mas o caso aqui é diferente do maravilhosamente retratado pelo meu/nosso querido Eça de Queirós (há-de vir um post sobre ele).
Já aquando do enforcamento de Saddam Hussein mostrei o meu desagrado e completa desaprovação deste tipo de medidas. Não creio que consigamos avançar para a paz mundial total quando ainda há por aí certas sociedades em que se enforcam ditadores, apedrejam mulheres, metem os pés de pequenas raparigas em moldes para que estes não mais cresçam, com o objectivo de ficarem pequenos e singelos. E deformados, não?

Creio que encontrei o adjectivo que justifica toda a minha tentativa argumentativa. Porque esta é uma sociedade que podemos comparar a um corpo humano que se vai levantando do chão. Um corpo que no entanto tem deficiências, e que precisa de ser tratado. Mas o tratamento é inútil, porque ele não está a ser tratado ao que devia, e as deficiências persistem. A deformação em certas partes vitais vai retraindo este ser, este ser que não vive em paz e que tão cedo não o poderá fazer. É a altura de acordar, fazer o tratamento. É que desta forma o seu filho vai sair igual, e o seu neto também, e nem o seu bisneto fugirá à regra, e por aí em diante.

Temos que saber se é o mundo que queremos dar a quem nos suceder, e já sabemos quão difícil será a sua tarefa. Se já se terão que preocupar essencialmente com questões ambientais (claramente indiferentes a sociedades como a dos EUA, que se recusam inconscientemente a assinar o Protocolo de Quioto), não percebo o porquê da continuidade do retrocesso civilizacional que caracteriza ainda muitas sociedades deste planeta.
As suficientes para continuar a deixar o corpo deformado.

Cumprimentos, Simão Martins

segunda-feira, março 12, 2007

E se vivêssemos num mundo de mulheres?


Peço desculpa por ter estado mais de uma semana sem fazer qualquer post mas não tive mesmo oportunidade, e fica já aqui essa nota.

O post de hoje vem já com seis dias de atraso, mas mais vale tarde que nunca.

Ora, dia 8 de Março foi, como todos sabemos, dia Mundial da Mulher. Muitas pessoas, maioritariamente do sexo feminino, contestam a comemoração do 8 de Março por considerarem discriminatório o facto de apenas existir um dia da Mulher e não existir um dia do Homem. Em relação a este facto tenho, então, duas opiniões (que podem parecer contraditórias):

1º- É de facto verdade que se um extra-terrestre olhasse para a sociedade de hoje em dia e visse o dia 8 de Março, pensava: "Mas o que é isto? Elas são mais que eles, trabalham mais que eles, fazem mais trabalho em casa do que eles alguma vez farão, e para além de terem apenas um dia só delas, também têm um canal só delas? Isto não faz mesmo sentido nenhum!". Eu teria concordado à partida com este caro E.T., mas apenas se não tivesse ido investigar as causas do 8 de Março;

2º- Eis o que me faz discordar da opinião do sr. E.T. : o dia 8 de Março serve para comemorar, ao contrário do que muitos pensam, uma das primeiras grandes contestações do movimento feminino, em 1987 nos EUA, e não para reservar um dia em 365 para as mulheres, como quem diz: "Tomem lá um dia, que outro é para as crianças, outro para os feriados religiosos, políticos, etc. que o resto é para nós (homens)!"

Mas também temos que compreender que há, de facto, um subaproveitamento das qualidades intelectuais e criativas daquele que é considerado por muitos (nunca por mim!) o sexo fraco. As percentagens não mentem, quando o número de mulheres licenciadas é estrondosamente superior ao dos homens, e quando para um mesmo emprego muitas vezes há a estranha preferência de escolher um homem para um cargo. Não é por acaso que não me lembro de termos uma presidente da República ou uma Primeira-Ministra. Em todo o caso, já vamos avançando a passos moderadamente convincentes para uma total emancipação da mulher, excluindo obviamente os países em que estas são obrigadas a usar o burqha, e em que muitas vezes nem têm bilhete de identidade, onde até já os cães estão mais avançados. Isto ainda para não falar no tempo que demorou a que se desse o direito de voto ao sexo feminino, o poder mais absoluto do povo, que não deve ser retirado a ninguém. A sombra que escondeu as mulheres durante séculos deve ser totalmente suprimida, para o bem de todos, para o bem do mundo.

(A propósito deste tema, ver um filme com Charlize Theron, North Country, de Niki Caro, 2005 )

Cumprimentos, Simão Martins

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Radiohead

Bom, e parece que não me consigo alhear de fazer um post musical por dia, sendo que não me apercebo se isso é algo positivo ou nem por isso.

Os grandes génios de hoje são os Radiohead, e permitam-me que o diga sem sequer pensar, sem ter sequer tempo para discernir se serão ou não das grandes bandas do século XX, o que é, de facto, inegável.
Além de tudo, parece que também mantenho a «mania» de vos oferecer as respectivas prestações perante numerosas plateias (excepto a dos The Good The Bad and The Queen), o que, a meu ver é claramente essencial pela simples razão de que ao vivo é que temos a possibilidade de saber se uma banda é realmente o que pensamos.
Muitos poderão discordar.
Aceito.
Mas esta música que vos deixo aqui é sem dúvida uma das grandes obras do senhor Thom Yorke e só espero que a apreciem com todo o respeito que qualquer artista merece.



"Karma Police"

Karma police, arrest this man
He talks in maths
He buzzes like a fridge
He's like a detuned radio
Karma police, arrest this girl
Her Hitler hairdo is
Making me feel ill
And we have crashed her party
This is what you get
This is what you get
This is what you get when you mess with us
Karma Police
I've given all I can
It's not enough
I've given all I can
But we're still on the payroll
This is what you get
This is what you get
This is what you get when you mess with us
And for a minute there, I lost myself, I lost myself
Phew, for a minute there, I lost myself, I lost myself


Cumprimentos, Simão Martins

«Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.»


O conhecido provérbio do título até poderia fazer prever um post animado, humoristicamente razoável, mas pelo contrário.
Trata-se de uma notícia que me deixou completamente perplexo como há muito não ficava: um homem chinês de 26 anos morreu após ficar praticamente sete dias (não foram os sete dias na totalidade, mas já imaginam o exagero da situação) a jogar computador online.

É assustador o aumento do tempo que as pessoas e principalmente os jovens, passam ao computador, sendo já considerado um dos grandes vícios deste mundo. Pode até parecer um pouco contraditório o que estou a dizer, tendo em conta que escrevo quase todos os dias no blog e perco para isso no mínimo 30 minutos, ainda sem contar com o tempo destinado a ver televisão e jogar Playstation («Faz o que eu digo não faças o que eu faço»). O que eu quero com isto dizer é que cada vez mais, com a diminuição do tempo para tudo (está provado que hoje em dia o tempo passa mais depressa do que antigamente), a utilização e gestão desse tempo começa a ser cada vez mais desaproveitada, ou mal aproveitada.

É uma pena que este homem tenha morrido, mas o que é facto é que mais ninguém poderá ser censurado a não ser ele mesmo.

Cumprimentos, Simão Martins

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Enquanto o Jorge Palma tocar...


Foi indubitavelmente um dos grandes momentos musicais a que já assisti.
Jorge Palma ao vivo na Malaposta, não mais que 150 espectadores, o que fazia prever um espectáculo bastante agradável. Claro está, ao princípio não parecia que assim fosse: o concerto estava agendado para as 21.30 e apenas começou às 22.15. Claro está também, bastou que Jorge Palma entrasse em palco para que todo o sentimento de revolta que naqueles instantes ameaçou chegar ao clímax se dissipasse.

A partir daí, e sempre com o seu jeito meio embriagado de quem sabe o que faz, Jorge Palma foi dando lugar a canções inexplicavelmente bem sucedidas, tendo também desafiado um pouco as leis naturais da música ao improvisar duas de Zeca Afonso. Chegou mesmo a cantar um verso de Pink Floyd. No meio de esquecimento de letras, improvisos desenfreados e divagações com o público, fomos assistindo a um grande concerto.

Acabou em grande, sem dúvida, com A gente vai continuar. No entanto, fica aqui a letra de uma das melhores da noite.


Dá-me Lume

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha tom
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo à mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e o reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar
Eu tinha o espírito aberto
Às vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro
E ao paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar
Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Cumprimentos, Simão Martins

À sexta foi de vez!


Peço desculpa se estou a ser previsível, mas é inevitável não falar sobre a grande noite de óscares a que ontem assisti.

E finalmente Martin Scorsese foi galardoado com o óscar de melhor realizador de 2007, pelo filme The Departed (Entre Inimigos). Devo recordar que cinco vezes antes fora também nomeado mas nunca provara a sensação de receber a estatueta dourada de Hollywood. O filme recebeu três outras estatuetas, entre as quais a de melhor filme e melhor argumento adaptado. Foi, como todos os jornais referiam hoje a «noite de Scorsese».
Nos outros óscares principais, não houve surpresas. Forest Whitaker ganhou o prémio de melhor actor principal (O Último Rei da Escócia) e Helen Mirren ganhou não só o prémio de melhor actriz principal (A Rainha), como também um convite da própria rainha Isabel II, que ficou impressionada com o desempenho da actriz.

Não posso deixar ainda de dizer que foi uma aposta ganha por parte da organização ao pôr Ellen DeGeneres como anfitriã do espectáculo.

Para dizer a verdade, estava a torcer claramente pelas Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood para melhor filme, mas pelos vistos a academia este ano estava mesmo do lado de Scorsese (excluindo totalmente a intenção de provocação, foi totalmente derrotado em 2004 por Eastwood com Million Dollar Baby).

Cumprimentos, Simão Martins


sexta-feira, fevereiro 23, 2007

PLEASE DO NOT WATCH THIS AT HOME!


É bem sabido que muito do que hoje se vê na nossa televisão é de uma qualidade por vezes tão ínfima que chega a amedrontar qualquer espectador minimamente razoável.

Assim, e uma vez mais criticando algumas coisas que vêm lá da terra do Tio Samuel, o tema do post de hoje destina-se a uma das maiores atrocidades da televisão de todos os tempos. Falo, claro está, do conhecido fenómeno da WWE. Para quem nunca ouviu falar, a WWE (World Wrestling Entertainment) é uma companhia de entretenimento norte-americana de Wrestling. O «espéctaculo» é, de resto, bastante simples. Histórias encenadas, lutas que na maioria das vezes não passam elas também de encenações forçadas, etc..

O meu alvo de contestação é não só o fenómeno em si, que já vai rendendo uns milhões, mas também a condescendência que as entidades reguladoras dos EUA têm para com este tipo de programas, quando censuram (no verdadeiro significado da palavra) partes de outros programas ou projectos por vezes bem mais pedagógicos. Julgo que muitos de vocês ouviram falar no escândalo que envolveu Janet Jackson e Justin Timberlake num espéctaculo ao vivo, em que este retirou a protecção de um dos seios da sua colega, provocando uma polémica tal, que neste momento existem entre 3 e 5 segundos de delay nas emissões em directo, para que este tipo de situações possam ser autenticamente «censuradas». Este processo de censura até já abrangeu músicas de bandas como os Rolling Stones, com o seu tão conhecido êxito, Satisfaction. Ora, isto leva-me a pensar que os EUA estão a retroceder a passos largos em relação ao resto dos países ditos «desenvolvidos». Por exemplo, na MTV americana não são permitidas as chamadas asneiras, impropérios ou como lhes queiram chamar, ao contrário da MTV europeia, em que tal não se verifica.

À luz destes factos, apenas posso concluir o seguinte:

Não podemos ver corpos nus (ou parcialmente), mas o que o WWE e a maioria dos videoclips de hip hop e rap promovem é precisamente isso! Quem nunca viu um videoclip do conhecido 50 Cent com quatro ou cinco mulheres a exibirem-se pornograficamente, rebaixando o sexo feminino ao mais nojento possível? No WWE, para além das lutas masculinas, existem também as lutas femininas com mulheres em biquini, cuja postura não está assim tão longe da nudez quanto isso. Será que não podemos ouvir palavras que não se devem dizer, ver mulheres nuas (não necessariamente na totalidade), mas já podemos assistir a lutas de ringue que só demonstram o quão primitivo o ser humano consegue ser? Não, o WWE não é desporto, e eu hoje assisti a um episódio na totalidade para poder comentar o que por lá se passa. Ocupa cerca de três ou mais horas diárias na Sic Radical e vai passar a existir um espaço para este entretenimento também na Sic generalista.

O que mais me surpreende, e tendo em conta que ser trata de um espectáculo que promove a violência como base e/ou consequência de um quase inexistente diálogo, é a quantidade exorbitante de audiências que este evento vai tendo e somando, o que é no mínimo preocupante. Assim sendo, tão cedo não poderemos assistir à extinção deste fenómeno (depreciativamente falando).

É pena.

Cumprimentos, Simão Martins

sábado, fevereiro 17, 2007

Iwo Jima


A primeira sensação: Viva a América! Falo sem dúvida do soberbo filme As Bandeiras dos Nossos Pais, de Clint Eastwood. Fala da farsa de uma conquista encenada com o objectivo de mover milhões de dólares para recuperar os gastos económicos da guerra. É sem dúvida um grande filme de guerra, em que a narrativa é intercalada com o cenário de guerra em Iwo Jima, a ilha que os americanos tanto ambicionaram conquistar e assim aconteceu, ao contrário de outras ocasiões.

O motivo por que falo deste filme é simples. Sem ele não teria feito muito sentido aquele que é desde já um dos melhores filmes que já tive o prazer e a possibilidade de ver.

As Cartas de Iwo Jima. A qualidade inerente a este filme deve-se a vários factores que, tentando não detalhar ao máximo o mesmo (embora vontade não me falte), são de uma perspicácia e genialidade que só Clint Eastwood me vai dando provas constantes de possuir (Mystic River, Million Dollar Baby).
Temos Saigo, um desajeitado oficial de baixa patente que acha ridícula a ideia de persistir na defesa da ilha de Iwo Jima, que vai ser uma das figuras capitais ao longo de toda a história. A grande interpretação pertence, ainda assim, ao general Kuribayashi, um visionário que tinha estado nos EUA, o que o levou a revolucionar as estratégias de guerra, por conhecer o inimigo. Surge depois Nishi, um antigo campeão olímpico de equitação que foi recrutado para ajudar a organizar a cavalaria. Por último, Shimizu, um ex-membro da polícia política japonesa, cuja história nos deixa um pouco abalados.

À partida poderiam afirmar que todas estas personagens parecem levar-nos para um filme de qualidade mediana, sem as características do que podemos chamar uma obra de génio. Mas, de facto, tal não acontece. Clint Eastwood consegue, num filme de guerra intenso (um pouco à semelhança de O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg) conjugar o mais cru que o humano pode ter com os mais ternos sentimentos. A determinada altura, e penso que é um dos muitos (muitos mesmo) clímaxes do filme, e quando falo de clímaxes, falo dos respectivos «golpes de génio», o momento em que Nishi decide não pôr termo à vida de um americano que alvejaram. Nishi pede ao médico da sua equipa que salve o americano, utilizando os medicamentos que restavam, argumentando que iria retirar informações sobre o inimigo. Como o interrogatório foi feito em inglês, os restantes soldados não se aperceberam de que Nishi e Sam falavam não de questões militares, mas de pormenores fúteis do quotidiano. Passado algum tempo (algumas horas), Sam acaba por morrer e Nishi lê a carta que o americano trazia consigo. A carta era da sua mãe, e aqui fica a nota que vai justificar as atitudes de ambas as partes (não conscientemente, digo-o como espectador), americanos e japoneses. Para além do desejo de Sam voltar são e salvo, dizia que «Devemos fazer o que é correcto, porque isso é o correcto».

E é isso que o filme tem de tão genial. Os pormenores que nos levam a pensar que não é preciso estarmos em guerra para reflectirmos se o que fazemos é o que está certo ou não. O mesmo se passou quando Kuribayashi, no seu jantar de despedida da América, teve que responder se, numa guerra eventual entre os EUA e o Japão, ele se juntaria à sua pátria e combateria os amigos do país que o acolheu. Ele apenas respondeu que agiria conforme as suas convicções, que seriam necessariamente as convicções do seu país.

Mais uma vez, muito bem, Clint Eastwood. E por aqui me fico, pois espero que vejam o filme, e possam vir comentar dizendo se concordam ou discordam plenamente com esta avaliação que aqui faço.

Cumprimentos, Simão Martins

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

«Os portugueses não têm testículos para dizer que o referendo à despenalização do aborto não é vinculativo.»


Pois bem, caro «senhor» Alberto João Jardim (autor da afirmação contida no título), eu acho é que a maioria dos portugueses não teve testículos sequer para ir votar.
Dito isto, cinquenta e seis por cento foi a percentagem de portugueses que se abstiveram de ir às urnas. Se é vinculativo ou não, essa questão não me compete a mim discutir. Penso acima de tudo que devemos aceitar a posição de quem votou e essa posição foi bem explícita, a meu ver.

Na verdade, foi a Alberto João Jardim que faltaram os testículos para assumir uma derrota claríssima, embora o seu partido não se tivesse vinculado a nenhuma posição no referendo.

Cumprimentos, Simão Martins

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

The Good, the Bad, the Queen, and the Valentine's Day

Hoje é talvez o mais informal de todos os posts que fiz até hoje. É com a alegria de quem tem os pés bem assentes na terra no que toca à vida amorosa que vos deixo a última maravilha deste mundo, da autoria do grande senhor Damon Albarn.





Feliz dia dos Namorados e cumprimentos, Simão Martins

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A má notícia...


E se o dia de ontem foi algo de positivo na sociedade portuguesa, o mesmo já não se pode dizer de um acontecimento do dia 2 de Fevereiro, num jogo de futebol da série A italiana, uma das principais competições futebolísticas europeias.

A razão pela qual não produzi até hoje qualquer texto sobre um acontecimento futebolístico de relevo, foi porque não tinha encontrado razão para o fazer. Pena ter sido esta a razão.

O sucedido deve ser bem conhecido por quase todos, mas passo ainda assim a descrever o que se passou: na 22ª jornada da liga italiana de futebol, defrontavam-se Catania e Palermo, um fervoroso derby siciliano. Galvanizados pela derrota da sua equipa, que até jogava em casa, os adeptos do Catania decidiram lançar-se numa revolta tal, que dessa atitude resultou um polícia morto, atingido por um explosivo. De imediato, o comissário extraordinário da Federação italiana, Luca Pancalli, decidiu suspender todos os campeonatos, incluindo os jogos da selecção italiana.

A razão pela qual decidi comentar este acontecimento é simples: a partir do momento em que um estádio de futebol ou de qualquer outro desporto se transforma numa arena gladiatória, a selvajaria impera e pouco há que possamos fazer contra a raiva das claques ou mesmo multidões apoiantes dos diferentes clubes. É por isso que devemos ser chamados a pensar para que servem as coisas. Para que serve o desporto? Para os desportistas, constitui o seu emprego, hobby, lazer, etc. Para os apoiantes, entretenimento. En-tre-te-ni-men-to. Revolta-me pensar que o calor da situação acabe tantas vezes em cadeiras voadoras, invasões proibidas de campo ou, como foi o caso, uma morte. Na Inglaterra, o país que criou o futebol, as pessoas vão «à bola» com o mesmo espírito com que nós, portugueses, vamos ao cinema. Claro que falo do público comum, não me refiro obviamente aos tão conhecidos Hooligans que usam o futebol como pretexto do seu desejo de vandalismo.

Entretanto, a maior parte dos jogos vão sendo realizados à porta fechada. Concordo plenamente, pois há que reflectir sobre certas atitudes irreflectidas ou não que se verificam tantas, tantas vezes por esse mundo. É altura de evoluir do macaco, esta é a circunstância da distinção, por que não aproveitá-la?

Cumprimentos, Simão Martins

A boa notícia...

Bom, após uma série de dias sem postar, por razões obviamente alheias aqui ao bloguista, regresso hoje com duas notícias que me pareceram dominantes, não só enquanto estive ausente, mas que se verificam ainda «em cima da mesa».
Começo então pela mais recente, de tratamento mais imediato e simples.

Pois bem, o SIM ganhou mesmo no referendo de ontem, dia 11 de Fevereiro de 2007. E como disse, vai ser bastante breve a minha apreciação da vitória do SIM ou, melhor dizendo, do referendo em si. Na minha opinião, a vitória do SIM é sem sombra de dúvidas uma vitória das mulheres e uma vitória para as mulheres que já não terão que se sujeitar a condições desumanas para uma atitude que só a si diz respeito. É uma vitória que deixa de criminalizar (atenção, certos partidários do NÃO, deixa de criminalizar, o que significa que despenaliza, cuja tradução não é certamente liberalização) as mulheres por interromperem voluntariamente a sua gravidez e que lhes possibilita um serviço especializado de acompanhamento legalmente autorizado em condições higiénicas e sanitárias suficientes para o efeito.

Assim sendo, ganhou o voto mais consciente, o voto que conseguiu, na campanha para este referendo, identificar melhor os seus objectivos, dos quais, essencialmente, a redução drástica do aborto clandestino até às dez semanas.

Cumprimentos, Simão Martins

quarta-feira, janeiro 31, 2007

SIM


Uma questão no campo fonético: diz-se "abôrtos" ou "abórtos"? Mas isso também não interessa nada.

Aproveitando não só o facto de ontem ter começado a campanha para o referendo sobre a despenalização do aborto, que se irá realizar dia 11 de Fevereiro, mas também tendo em conta o debate de segunda-feira no Prós e Contras, retomo assim uma discussão deixada em standby de há uns posts para cá.
Pois bem, se houve razão pela qual vi o debate, foi a de querer ir dormir um pouco mais informado sobre o assunto. E não é que tal aconteceu?
Para quem ainda não percebeu, a pergunta que nos é colocada para votarmos "sim" ou "não" dia 11 («Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»), apenas visa uma alteração no código penal que, se o "sim" ganhar, deixa de penalizar as mulheres aquando duma decisão que tomam que é a de interromper a formação de algo que mais tarde se tornará num ser humano. Se o "não" ganhar, como podemos ver num post de há uns dias do Random Precision (ver nos links), a única coisa que vai mudar é precisamente nada.
Apercebi-me que votar "não" ou não votar é precisamente a mesma coisa, na prática.

Então, se os partidários que são contra o aborto acham tão bem votar não, por que é que não lêem melhor a pergunta e dão maior atenção a estas quatro palavras: "(...)por opção da mulher(...)"? Trata-se de uma opção, uma mera opção! O que quer dizer que, partindo do princípio da liberdade de escolha e de opção, só faz quem quer. Certo?
Se condenam assim tanto quem faça um aborto às dez semanas, por que é que consideram menos humano o feto proveniente duma violação, cujo período limite de aborto é até às doze semanas? Que eu saiba, a sua formação até já vai mais avançada que as dez semanas propostas em referendo. Em Espanha, por exemplo, o aborto é permitido até às doze semanas, o que é de facto muito curioso. Serão eles os maiores carniceiros de que há memória? Ou teremos nós aqui mais um caso em que decidimos deixar-nos ficar para trás? Embora aparente tal coisa, o meu argumento não assenta neste pressuposto de que "lá porque a Europa faz, nós também temos que fazer, etc".
O meu argumento baseia-se no desejo de uma legítima liberalização desta opção que é a interrupção voluntária da gravidez, por ser um direito a que qualquer mulher tem de ter acesso. Claro que os abortos vão aumentar, se o "sim" ganhar, claro que vão. Mas isso é porque desconhecemos os números exactos de abortos clandestinos efectuados anualmente.
O "sim" vai acabar com a clandestinidade do aborto, vai acabar com a humilhação das mulheres, e com o perigo da sua morte aquando dum aborto clandestino. Isso não significa que se faça "ao pontapé", como alguns favoráveis ao "não" afirmam veemente. Deve haver coerência num acto desta natureza e não acredito que o governo não crie organizações de apoio prévio a mulheres que desejem fazer um aborto. Se o fizerem, não deverão ser proibidas. Se não morrerem, tudo bem. Se ficarem com traumas pós-aborto, paciência, mas só elas é que se podem julgar a si mesmas por terem abortado.

Como dizia um professor meu, e aplicando novamente as suas palavras: "Quando se dá a máxima liberdade, tem de haver a máxima responsabilidade".

Cumprimentos, Simão Martins

segunda-feira, janeiro 29, 2007

“Eu tenho duas mães. E tu?”


Era uma vez uma menina chamada Marisa que tinha doze anos e andava numa escola, como todas as meninas da sua idade. O que muita gente estranhava era o facto de Marisa ter duas mães. Aliás, costumavam perguntar-lhe “Marisa, as tuas mães fazem amor?” ao que ela respondia “Claro! Porquê, os teus pais não fazem?”. Isto demonstra que o que se diz acerca da educação “anti-natura” de duas mulheres em relação a um filho não é verdade. Por exemplo: Um dia, na sua nova escola, foi-lhe entregue uma ficha de inscrição para preencher com os respectivos dados pessoais, um processo burocrático inerente a todos os alunos. Quando ia a preencher o espaço destinado ao nome do pai, riscou a palavra PAI e escreveu MÃE por cima. Como seria de esperar, o facto despertou algumas reacções adversas à sua atitude, mas a directora da escola achou por bem abrir uma opção nos campos de preenchimento ao possibilitar que fossem colocados dois nomes de pai ou dois nomes de mãe. É de facto curioso podermos observar a naturalidade com que Marisa age no seu dia-a-dia, como se a sociedade em que vive aceitasse a sua condição de «filha de duas mães». Aliás, por vezes Marisa refere que “é tão chato ter duas mães! Agora tenho mesmo que fazer os trabalhos de casa porque a vigilância é a dobrar!”. Cheio de ironia mas ao mesmo tempo tresandando a genuinidade e alguma inocência, esta é talvez a melhor definição para o discurso de Marisa, que ainda vive à espera de que as mães se possam casar, o que melhoraria a situação actual em que se encontram.
Será que seria diferente se tivesse um pai e uma mãe em oposição à sua situação actual? Sê-lo-ia certamente, pois Marisa tem um pai que foi casado com a sua mãe. Será que temos o dever de obrigar uma criança a ficar com o pai biológico que a maltrata, tratando-se de mais um alcoólico sem escrúpulos? Não é então aqui que entram os “intocáveis direitos e condições das crianças”? Se o bom senso e o discernimento não nos servem para nada confrontados com a legislação, o que é que nos salva?
Com efeito, Marisa é sem sombra de dúvidas uma criança muito feliz, e não é por ter uma mãe a mais ou um pai a menos ou vice-versa. É por ter uma família.

Cumprimentos, Simão Martins

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Knights of Cydonia

Eles são Matthew Bellamy, Dominic Howard e Chris Wolstenholme, normalmente conhecidos como Muse, uma banda britânica que tem vindo a ganhar adeptos (nos quais me incluo), principalmente desde o grande álbum de 2003, Absolution. Embora muitos dos seus singles mais divulgados façam parte desse cd, hoje decidi fazer uma pequena homenagem àquele que foi considerado aqui pelo bloguista como o segundo melhor cd de 2006: Black Holes and Revelations. Enfim, como o meu objectivo não é produzir uma descrição minuciosa de Black Holes and Revelations, posso assegurar que me senti levitar autenticamente quando ouvi pela primeira vez Knights of Cydonia. E como os Muse foram considerados a melhor banda ao vivo de 2006 por algumas revistas conceituadas lá por fora, aqui fica, não só a letra da música, como o início do que foi o melhor concerto em 2006 no Reino Unido, Muse ao vivo em Reading:

Come ride with me through the veins of history
I'll show you a God who falls asleep on the job
How can we win when fools can be kings?
Don't waste your time or time will waste you

No-one's gonna take me alive
The time has come to make things right
You and I must fight for our rights
You and I must fight to survive

No-one's gonna take me alive
The time has come to make things right
You and I must fight for our rights
You and I must fight to survive

(clicar na imagem para ver/ouvir/delirar):


Cumprimentos, Simão Martins

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Entrada com o pé direito!

Se, como já referi em posts anteriores, o ano de 2007 não começou da melhor maneira, o mesmo não se pode dizer quando entramos no domínio da sétima arte.
Chega-nos então, do realizador de Amores Perros (2000) e 21gramas(2003), aquele que já é considerado o grande filme deste ano, Babel.
Na mesma tonalidade de Magnólia, Happy Endings, e 21gramas, Babel consegue reunir vários factores que por si só valem o bilhete de cinema: um thriller bem definido, com todos os elementos essenciais das diferentes culturas espalhadas pelo mundo, um olhar objectivo sobre o que tem sido a globalização e a sua influência à volta desta esfera curiosa que é o planeta Terra.
Segue então o esquema de histórias que se cruzam e que, de uma maneira ou de outra, têm influência umas nas outras, directa ou indirectamente.
O elenco é constituido por alguns nomes bem conhecidos: Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael García Bernal, sendo que, na minha opinião, o grande papel secundário (visto que neste tipo de filmes é quase sempre impossível determinar um actor principal) ficaria reservado para Adriana Barraza, a actriz que encarna a personagem Amelia.

Talvez não deva prosseguir pela narrativa (pois o filme também tem a sua dose de efeito surpresa), ficando então apenas a proposta de um dos grandes candidatos ao óscar de melhor filme do ano.

Cumprimentos, Simão Martins